Crônica: Violência contra a mulher


Abuso? Não, ele me ama.

Seu João tem 35 anos, é casado com Dona Maria e tem dois filhos, Joana e Joaquim, ambos na sua flor da juventude. Seu João vai às ruas e protesta a favor do direito da mulher. Seu João condenou os atos do Goleiro Bruno e repudiou as ações de Marcos no BBB 17.  Seu João teve acesso apenas até o ensino médio, onde conheceu Dona Maria. Seu João diz para seus filhos pensarem nas suas atitudes e decisões para não terem que sair da escola cedo. Esse é o lado da história de João, a mais contada e às vezes a mais aceita.
O outro lado é o de Dona Maria. Dona Maria sempre se dedicou aos estudos, mas quando conheceu João e se apaixonou, acabou tendo seu futuro destruído com a gravidez precoce. Hoje, também em seus 35 anos, Maria não se parece tanto quanto antigamente. Não pode ir até um salão de beleza e pedir que arrumem seu cabelo porque seu marido diz “vai se encontrar com quem? Mulher dos outros não deveria se arrumar pra não atrair olhares”. Dona Maria evita usar saia e vestidos na altura do joelho porque Seu João diz não ser coisa de “mulher direita” e se Maria tenta responder ganha um hematoma roxo. Dona Maria acha que isso é algo passageiro e que João está apenas cuidando do que é dele, que aquele jeito torto, doentio e violento são apenas uma maneira de expressar seu amor por ela, afinal... Seu João nunca foi bom com palavras e a culpa é dela por ter seduzido ele quando estudavam juntos, porque foi ela quem engravidou já que ele não precisava usar proteção por ser desnecessário e “experiente”.
Pessoas relacionadas ao casal chegaram a ligar para o 190 e reportar violência doméstica, mas quando a polícia vai investigar João e Maria dizem ter sido apenas um trote e que nunca houve nada abusivo naquela casa. Amigas de Dona Maria falaram para ela ir até a delegacia de defesa da mulher e reportar o que acontece com ela, mas ela diz “acontece o que? Meu marido é muito bom para mim e para meus filhos, eu que sempre o atrapalho e sou muito desastrada por isso sempre me machuco”.
Uma vez os amigos do Seu João foram a casa dele assistir o jogo do Brasil na última Copa do Mundo. João mandou sua esposa servir cerveja e salgadinhos para seus amigos, sempre dizendo “ô mulher, tu não faz nada da vida. Vem servir comida, onde já se viu? Eu trago meus amigos e não tem nada para eles comerem?” e ela responde “já vou homem, estou lavando roupa não posso ir agora. Pega a gelada na geladeira”. Seu João se controlou na frente de seus amigos, porque afinal ele era contra a violência da mulher só que quando eles foram embora ele “colocou ela no seu devido lugar”.
Quando foi demitido do emprego, se sentiu humilhado porque agora teria de depender das faxinas que a mulher fazia. Então como solução foi para o barzinho da esquina e bebeu, bebeu até não sentir seus pés, depois foi para casa e viu sua mulher que preparava o almoço do dia seguinte para ele. O que Seu João fez? Primeiro falou alto com sua mulher, mas tão alto que todos no quarteirão conseguiam escutar, depois achando que ela ainda não o obedecia e não prestava atenção foi até ela e lhe deu um leve tapa, um tapa tão leve que ficou um hematoma enorme no rosto dela, se sentindo culpado ele lhe deu um beijo e a levou para o quarto com carinho, um beijo forçado e a levou pelos cabelos em meio aos tapas para terem relações sexuais contra a vontade dela. E no dia seguinte não se lembrava de nada do ocorrido, ou então dizia que a culpa foi dela por não obedecer ele.
E quanto a Joaquim e Joana? Joaquim tem uma namorada, começaram a ter relações sexuais, mas Joaquim aprendeu tudo na teoria com seu pai e por isso sabe que não é necessária a proteção porque diz saber de tudo e só amadores usam camisinha, o resultado é o mesmo esperado depois de 9 meses. Claro que Joaquim mandou ela se livrar do bebê porque ainda é muito novo para ser pai, quando ela se recusou Joaquim terminou o namoro e nunca mais se viram. E Joana? Bem... Joana é estudiosa e sabe esperar a hora certa, seu namorado é bom com ela só briga quando usa vestido curto ou se nega a fazer algo que ele quer.
Dona Maria percebe que sua família está em um ciclo vicioso e quer mudar de vida, estudar para arrumar um trabalho melhor. Decide então fazer um supletivo do ensino médio porque quem sabe assim pode dar um futuro melhor para seus filhos. Só que Seu João não gosta da ideia de ter uma esposa erudita, ele é o homem da casa, aquele que sabe de tudo, o que diz é a lei.
Então cansada e percebendo que seus filhos merecem mais do que possuem, decidi ir contra a ordem de João que por sua vez resolve dar um corretivo na sua mulher. Preocupada com a influência do seu relacionamento na criação dos filhos decide procurar ajuda, vai até a delegacia de defesa da mulher e faz uma ocorrência. Dona Maria se separa do marido e decide mudar de cidade com os filhos, João vai atrás toda vez em que ela tenta fugir. Maria procura a polícia que começa a procurar João.
João é esperto e sabe aguardar na encolha o melhor momento de buscar sua mulher e a fazer pagar por todo o estrago que causou na vida dele, não quer que os filhos vejam e assim espera até sua esposa estar sozinha. A hora chega e João entra na casa que deveria ser dele, se esconde e espera Maria voltar do trabalho. Quando ela chega vai até ela e mostra quem manda na casa, para se proteger ela pega algo pontudo e machuca-o. João acha isso imperdoável, como ousa? A briga vai parar na cozinha, ela bate nele e irritado com isso, pega uma faca e mata a esposa.
Os vizinhos escutavam a briga e chamaram a polícia, Joana e Joaquim voltavam da escola e se depararam com a viatura da polícia, entraram em casa e viram o corpo sem vida de sua mãe sendo levado pela equipe forense de homicídios e então olharam para seu pai, com sangue nas mãos, preso e sendo levado embora pela polícia. Tudo o que podiam pensar era como não puderam impedir isso antes? Estavam com tanto medo do pai que deixaram sua mãe sozinha quando mais precisava.
Hoje Joaquim mudou de vida, aprendeu o certo e o errado com o passado de seus pais e faz o possível para criar bem seus filhos. E Joana virou escritora, em seus relatos conta a história da sua infância e de como sua mãe morreu para que um dia as pessoas tenham consciência de suas ações.
Não basta orientar, dizer para a mulher ir até a delegacia da mulher. Tem que tomar uma posição quanto a esse assunto, agir e não ficar na encolha, se manifestar. Afinal não pode confundir amor com abuso, carinho com violência e nunca se deve pensar ser algo normal ou se culpar por algo que não cometeu. A violência contra a mulher não é justificável e jamais será. As palavras chaves são: prevenção e conscientização.


17 comentários:

  1. Conheço muitos homens como João e, infelizmente, a quantidade de Maria também é grande. Infelizmente a violência contra mulher está em toda parte e em vários lares e esse conto retrata, de maneira bem fiel, o cotidiano de muitas mulheres. Uma pena que, nessa história, as coisas não acabaram de uma forma boa para Maria. =/
    Parabéns pelo texto!
    Beijos

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  2. Muito forte essa crônica. As mulheres sofrem muita violência atualmente e isso é culpa da lei que protege a quem não deve. A lei é fraca e as mulheres são quem sofrem.

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  3. Infelizmente essa violência contra a mulher está aumentando a cada dia. Mesmo com a lei a favor, em alguns casos a história tem um fim trágico como este. Temos que denunciar sempre, temos que ajudar sempre. Parabéns pro tratar desse assunto em seu blog.

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  4. Seu João e dona Maria, retrato atual de muitos casais nos dias de hj. Qdo isso vai mudar.
    Parabéns pelo texto, muito forte porem verdadeiro!! Bjs!!

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  5. Que texto emocionante. Infelizmente é a realidade de muitas mulheres. Já tive amigas que passaram muito por isso é até que um dia elas criaram coragem e se livraram deles. Mas as que não tem essa coragem? E o mais triste e tem que deixar seus filhos conviverem com essa triste realidade.
    Triste demais!

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  6. As coisas acontecem exatamente assim, um detalhe leva a outro e vira uma bola de neve sem fim... :/

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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  7. O que me deixa mais magoada e doída é que quando você faz de tudo para que a pessoa enxergue o abuso e a violência, ela usa Deus, usa um "chamado", uma ordem divina e até a divindade para explicar aquele amor, aquela aceitação e só me traz dor e desalento. Crônica muito verdadeira e dolorosa. Bjs

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  8. Não devemos ficar calados diante de um caso como esse. Minha mãe viveu um relacionamento abusivo e fiquei do lado dela até o fim, muitas mulheres ao menos notam que estão dentro de um relacionamento abusivo e isso é triste demais. Parabéns pela crônica!

    http://blogquinzeprasnove.blogspot.com.br

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    1. Eu sinto muito pela sua mãe Ana, eu e tenho certeza que as outras meninas do blog esperamos que ela tenha conseguido sair dessa. Felizmente nunca passei por isso, e não consigo imaginar o quão difícil foi para você e sua mãe lidar com isso.

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  9. Texto bem escrito e assunto bem exposto, e tema altamente relevante. Parabéns.

    Até mais!!
    Leituras da Paty

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  10. Menina! Que texto!
    Quem não conhece uma história parecida?
    Mas não pense que só na classe mais pobre não, quando jovem eu trabalhava como auxiliar de odonto numa clínica e tinha uma dentista que volta e meia aparecia com hematomas nos braços, as vezes mancando até que um dia foi parar no hospital e foi assim que descubrimos que ela era agredida pelo marido. O fato é que junto com a agressão física tem a psicológica, as humilhações acabam minando a estimativa da pessoa, fazendo com que rola pense que a culpa só pode ser dela.

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    1. Desculpe, estou comentando pelo cel e o corretor não ajuda rs
      *descobrimos
      *estima
      Eu amei seu texto.
      Bjs

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  11. Olá, infelizmente há muitos casos reais de Joões e Marias, e muitas vezes começa com a inferiorização da mulher, como se ela tivesse alguma culpa de algo... Importantíssima a crônica para que pensemos sobre o assunto.

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  12. Texto perfeito que ilustra infelizmente o dia a dia de muitas mulheres, espero que um dia isso mude pois é muito triste que isso ocorra e que quem poderia ajudar se omite. Bjs

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  13. Olá, o legal dessa crônica é que dá para reconhecermos todos os personagens em pessoas conhecias, e é triste pensar que a situação retratada aí é algo bem corriqueiro. Adorei o testo. Bjs

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  14. Olá, tudo bem?
    Adorei o tema abordado na crônica, temos que dar total atenção a esse fato que infelizmente ocorre com muitas marias no mundo.
    Um beijo.

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